Texto Curatorial
Arte, Afeto e Liberdade: Coleção de Eduardo Vasconcelos
Conheci Eduardo quando fui curadora da exposição “Em Casa”, da artista Elisa Arruda. Fui recebê-lo na Galeria do Banco da Amazônia, para uma visita dialogada sobre a concepção curatorial e os núcleos das obras que estavam dispostas no espaço expositivo. No decorrer da conversa, alinhávamos pontos de reflexão nos quais imediatamente percebi a intimidade de Eduardo com a poética da artista. Ao final, Luiz Cláudio, que estava junto com Eduardo, me fez o convite para estar à frente da curadoria dos quatro anos da Revista Design.com. Naquele momento (em março de 2020) o contexto era pós-lockdown. E no meio de tantas incertezas, porém, um desejo era certo: o de realizarmos conjuntamente uma exposição.
Alguns meses depois nos reencontramos para retomar a ideia de fazer a curadoria da revista, que a priori seria com artistas convidados. Naquela instância, eu já tinha me dado conta da coleção de Eduardo. Foi quando sugeri que a exposição em comemoração aos oito anos da revista fosse com a Coleção Eduardo Vasconcelos, ideia aceita imediatamente por Luiz e Eduardo.
Ao fazer a primeira visita em seu apartamento, percebi que a coleção de Eduardo era, de fato, única. Todavia o que mais me chamou atenção foi a maneira como ela vinha sendo formada, junto aos artistas que ele conhecera, com as muitas visitas a ateliês e exposições. A primeira obra adquirida por Eduardo foi a pintura “Casa Coração”, do artista Jorge Eiró. Eduardo conta que a imagem do coração explodindo em vermelho-sangue arrebatou seu coração, como uma presa de sedução, como uma casa, iglu, cabana, aconchego de afetos. Só saiu da I CasaCor Belém depois de ter adquirido a obra. Depois, pegou um ônibus e foi para casa.
Passamos a tarde revirando e verificando o acervo que convivem sem cerimônia nas salas, quartos, bibliotecas e todos os cantos de seu apartamento em Belém. O ambiente que acolhe a coleção é autêntico e traz vida para aquelas obras, afinal cada trabalho tem uma história para contar. Não existe afetação nem soberba de colecionador que naturalmente transforma sua casa em galeria, ou galeria casa. As obras pertencem àquele espaço de habitação, de convivência, de moradia, de celebração, de comunhão.
Em cada canto, objetos contemporâneos e peças primitivas misturam-se aos livros, CDs, e elementos decorativos sem as diferenciações de caixas de acrílicos e variados suportes. A casa galeria ou galeria casa é toda artística de cima abaixo. Tanto que é necessário estender o olhar para todas as direções. E foi nessa confluência de movimento que selecionei a instalação de Lise Lobato, que estava articulada na parte superior da casa. O espaço é convidativo para ficarmos nele sem perder o efeito de estranhar todos “aqueles” territórios vívidos que palpitam como a batida do coração, na qualidade de tempo de Kairós.
Trazer um recorte dessa coleção é um ato de liberdade pela arte. É, entretanto, a essência da arte e do artista, desde a modernidade do século 19, que tem a premissa de conseguir e assegurar a liberdade em relação à arte. Ressalto aqui como ponto de atenção: é o que deveria buscar o observador da arte, o amante da arte, como comumente se diz. Para esse, a liberdade diante da arte é ainda o mais desafiador devido às prisões artísticas que se cristalizam antes mesmo que se decida olhar para a arte pela primeira vez ― que perpassam pelas instituições centrais da História da Arte.
A coleção de Eduardo subverte a cronologia e as “escolas” e seus rótulos. Entretanto, nenhum colecionador está totalmente livre, e é justamente ele quem faz a medição, que se encarrega de cuidar para que suas portas não fiquem escancaradas. Vários são os motivos para reunir tantas diversidades no mesmo lugar, dentre eles o patrimônio pessoal. Porém, na sua intimidade mais profunda, também é colocar a arte não na perspectiva da História da Arte com seus compartilhamentos, dos quais, vale dizer, nada escapa, incluindo aqui o colecionador em uma relação não simétrica. No entanto, o que se tem no contato com a coleção de Eduardo é um descanso, uma percepção e convivência de uma liberdade para a arte e, portanto, uma não diminuição a categorias, escolas, linearidade ou padrões.
A coleção provém em parte da objetividade e intencionalidade de Eduardo Vasconcelos: não colocar essas obras num cenário, num mostrador em vitrine como vemos numa constância. Pelo contrário, elas estão imantadas por ali, espraiando-se desde a sacada de seu apartamento, despretensiosa, misturando-se aos objetos habituais da cozinha, sala, quarto, espaços entre sofás e mesas, sem se exibirem excessivamente, sem reinar e sem, muito menos, deixarem-se diminuir pelo espaço todo da casa galeria. Ali, naquele espaço, a arte se mistura à vida, na inteireza desse colecionador que narra história significada de familiaridade, de afeto, de amizade com a arte.
A relação de Eduardo com sua coleção é intensa e diversa, alinhada com ele e o artista, com histórias pessoais de um contato intimista com a obra, com quem a fez e com o caminho que ela seguiu. Eduardo simplesmente se deixou contaminar pela arte, num jogo que não é da compra anônima por telefone ou por um catálogo. Ele compra suas obras por afeição e afecção, do que o artista é o propulsor. O que conta para o colecionador é sua relação com ela numa total liberdade. É, na verdade, a vida da arte e na arte.
E foi com essa entrega que selecionei 51 artistas numa perspectiva de núcleos: corpos performáticos, paisagens humanizadas, artístico político-social e afetos. Que a Coleção Eduardo Vasconcelos represente o respeito pelo espírito não conformista e libertário dos artistas. Que venham outros recortes!
Vânia Leal Machado
Curadora
As galerias Theodoro Braga e Benedito Nunes, em Belém, receberam em novembro de 2021 a exposição “Afetos Múltiplos”, com obras de diversos artistas paraenses, selecionadas a partir do acervo do colecionador de arte Eduardo Vasconcelos.
A exposição foi uma iniciativa de Eduardo em parceria com a revista Design.com, com apoio do Governo do Estado por meio da Fundação Cultural do Pará. A curadoria foi de Vânia Leal e apresenta 70 trabalhos de mais de 50 nomes das artes plásticas paraenses, pinçados de um universo de mais de 500 obras da coleção de Vasconcelos. Entre os expostos, estiveram Evna Moura, Jorge Eiró, Walda Marques, Miguel Chikaoka e Alexandre Sequeira.