Texto Curatorial
Arte Desnudada
Que venham outros recortes! Esta foi a frase que escrevi no final do texto de apresentação da exposição "Afetos Múltiplos", primeira mostra da Coleção de Arte de Eduardo Vasconcelos, em dezembro de 2021. Escrever o que se deseja é importante porque as palavras voam ao vento e, em diversas experiências como esta, podem se concretizar - e olha meu desejo realizado, em menos de um ano. Eis aqui mais um recorte do colecionador de arte paraense, a exposição "Desnudo”.
As obras que você vai conhecer a seguir têm em comum um tema latente na coleção de Eduardo: a sexualidade, que encontra representatividade na vida e na arte. Nesta perspectiva, esta exposição tem a vida contaminada pela arte e a história fica nos bastidores para dar lugar à relação pessoal do colecionador com esse preciosíssimo e antecipador recorte.
Eduardo conquista a liberdade na arte por meio de "Desnudo". Conquistar a liberdade em arte não é um feito fácil. Deste modo, não sentimos aqui a conversão de categorias e a, quase sempre, opressão da história da arte. As obras aqui despidas não são rotuladas. Cumprem uma intenção bem demarcada: entrar em contato e afetar a humanidade. É um convite a desnudar-se.
Esta seleção de trabalhos desperta questões relevantes para a sociedade através da representatividade de 28 artistas LGBTQIA+, mais 30 mulheres e 6 negros. No grupo tem também a presença de artistas internacionais, nacionais e nortistas, que perfazem, ao todo, mais de 50 anos de arte. A coleção é uma forma de fazer o justiçamento histórico com humanidade e diversidade, tão necessário na agenda atual - que se movimenta pelas questões de gênero e sexualidade.
Ao adquirir a produção de mais de 60 artistas diversos, o colecionador rompe visões criadas numa sociedade desigual. Ao expor ao público todos estes trabalhos, Eduardo Vasconcelos legitima os artistas na condição de sujeitos e seres ativos que, historicamente, vêm fazendo resistência e re-existências.
Obras expostas
A exposição inclui 105 obras reunidas em núcleos temáticos e não cronológicos, como, por exemplo, o núcleo "Corpo e Ativismo", que se aliam a políticas relativas ao corpo e se atravessam por questões de gênero e sexualidade. "Corpo Desnudo" é mais um núcleo da exposição. Ele escancara corpos abertos, diversos, inconstantes, sobrepostos, em transformação, de cabeça para baixo, pernas entrelaçadas... a exemplo da intrigante "Porca Ácida", um dos trabalhos do artista paraense Tadeu Lobato, que faz parte desta exposição de Eduardo. Inclusive, esta obra de Tadeu teve influência da "atarraxada na lavadura", citação do poema de Ezra Pound, poeta e crítico literário americano. Já o núcleo "Fantasias e Fetichismo", articula representações de discurso e práticas de jogos sexuais, explorações, quebra de tabus, afetos, invenções de outros modos significativos do caráter mágico, que atrai para o prazer com a subjetividade não dissimulada.
Nesta divisão temática, as obras aqui expostas tocam a sexualidade e convocam o público para que toque o verdadeiro frente às imagens que os artistas apresentam. A arte constrói a liberdade... ou ao menos permite instante de liberdade. Que esta exposição gere sensação de liberdade frente ao caráter político, social e cultural. É preciso desnudar o olhar de preconceitos e, especialmente, se deixar refletir sobre os trabalhos desses artistas numa atitude transgressora.
Bem-vindos!
Vania Leal
Curadora
A galeria Benedito Nunes em Belém (PA) recebeu no dia 20 de maio de 2022 o aguardado vernissage da exposição de arte “Desnudo”, contemplada pelo edital Prêmio Branco de Melo, da Fundação Cultural do Estado do Pará. A exposição com curadoria de Vânia Leal reuniu 131 trabalhos de mais de 90 artistas de 15 estados brasileiros e 11 países, presentes na Coleção Eduardo Vasconcelos e também em um catálogo impresso distribuído aos visitantes.
A mostra teve apoio do Studio Tintas, Maxcolor e revista Design.com e ficou aberta ao público para visitação gratuita de 21 de maio a 1º de julho, de segunda a sexta, das 10h às 17h. Os visitantes foram convidados a conferir a diversidade presente nas formas de representação artística do corpo humano, repensando os conceitos dos corpos-obras enquanto mecanismos de discussão política, de gênero e de sexualidade.