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Viviana Posincovich

Viviana Posincovich

1965 - Manuel Ocampo/Argentina

Nascida em Manuel Ocampo, uma pequena cidade perto de Pergamino, na província de Buenos Aires. Crescer nesse ambiente despertou nela uma profunda necessidade de conexão com a natureza.
Aos 19 anos, tornou-se mãe enquanto estudava antropologia. Embora não tenha concluído o curso, essa experiência foi um ponto de partida fundamental: abriu-lhe as portas para o conhecimento ancestral, as cosmovisões indígenas e os métodos de produção artesanal que continuam a nutrir seu trabalho até hoje.
O desejo de ficar em casa, criando e desfrutando de seus filhos, a levou a encontrar uma maneira de viver da arte, trabalhando em casa. Para ela, essa oportunidade foi um grande presente que se deu.
Essa conexão com suas raízes ancestrais a levou a trabalhar com papel e gravura no início de sua carreira como artista. Atualmente, ela continua a produzir seu próprio papel a partir de fibras vegetais. Ela nunca comprou papel!
No início, também utilizava tecidos, mas sua conexão com o papel era mais forte e permitiu que ela desenvolvesse técnicas de serigrafia e xilogravura.
Criar em sua oficina caseira e vender suas peças não era apenas uma forma de se sustentar, mas também sua maneira de habitar o mundo.
A cerâmica entrou em sua vida através dessa necessidade ancestral e humana de trabalhar com argila.
Durante a pandemia, começou a desenvolver um negócio que combinava cerâmica e têxteis para criar pequenos animais que ela chamava de xamãs e fetiches. Em sua exposição no Espacio Hornos sin Fronteras (Espaço Fornos sem Fronteiras ), ela apresenta uma série de figuras inspiradas em animais nativos.
Essas criaturas nascem de uma conexão com a natureza e de uma perspectiva profundamente influenciada pela cosmovisão indígena. As histórias dos povos indígenas, suas mitologias, princípios filosóficos e as formas singulares do artesanato andino servem como gatilhos criativos para dar vida a seres únicos, imaginados a partir dessas raízes.
Vivi também os chama de “bonecas” porque a fazem lembrar de sua infância no campo. Para ela, são uma forma de retornar àquele tempo em que a humanidade estava mais conectada à magia da natureza, à maravilha de cada descoberta, à alegria de subir em árvores. É um momento que ela guarda com carinho como o melhor de sua vida.
A artista acredita que, consciente ou inconscientemente, definimos desde cedo coisas importantes para o nosso futuro. No caso dela, tornar-se mãe jovem e dedicar-se à arte está relacionado a isso: quando criança, ela sempre criava com tudo o que encontrava. Ela se lembra das tardes na lagoa com uma amiga, coletando caracóis ou girinos para observar sua transformação. Essa admiração pelos ciclos da natureza deixou uma marca indelével nela.
Hoje, ela continua trabalhando dessa forma, com o que tiver à mão — tecidos, cerâmica — para dar forma a criaturas que muitas vezes têm algo de animal e de humano. Para ela, existe uma magia na natureza que nem todos enxergam. Ela cresceu no campo e, embora seu sobrenome venha de outro lugar — seus avós eram croatas —, sente que suas raízes estão aqui. Ela se identifica como mestiça, nascida nesta terra, e acredita que seus ancestrais, além dos laços sanguíneos, também estão aqui.
Sua formação é autodidata, embora ela não goste muito desse termo. Prefere pensar que se baseia em conhecimento de diversas fontes. Sempre foi muito curiosa sobre materiais, interessada em pesquisar e trazer tudo isso para o ateliê, experimentando como diferentes materiais se expressam. É por isso que cerâmica e têxteis se entrelaçam em seu trabalho.
Ela também tem uma relação especial com os têxteis: encontra-os em todos os lugares. Não apenas em resíduos industriais, mas também porque toda casa tem materiais guardados. Ela recebeu tecidos antigos de amigas que haviam se esquecido de que os possuíam — peças andinas ou retalhos que alguma avó guardou por anos em uma gaveta.
Esses tecidos são uma enorme fonte de inspiração. Cada um carrega uma história, um peso simbólico que ela transforma em algo novo. Ela adora poder dar-lhes uma segunda vida, trabalhar com o que já contém memória e transformá-lo em algo completamente diferente.
Essa artista têxtil e ceramista menciona que teve muitos modelos a seguir, mas se tivesse que escolher um, seria silke, do mundo da arte têxtil. Quando chegou a Buenos Aires, Silke morava lá, e ela já tinha visto alguns de seus trabalhos em batik sobre seda, uma técnica que a fascinava. Embora não pudesse ter aulas com ela, Silke sempre foi sua inspiração. Ela começou a praticar batik sozinha, com um pequeno livro, praticando a técnica em tecido combinada com uma estampa e, em seguida, transferindo-a para o papel. Ela
ainda usa essa técnica hoje. É uma técnica de reserva: usa-se cera de abelha quente, aplicada sobre papel ou tecido, criando uma reserva, que depois é tingida e coberta novamente com cera. Silke era uma mestra nisso e um modelo a seguir naqueles primeiros anos. Muitas outras áreas se seguiram: pintura, design gráfico, gravura…
Em relação à confecção de bonecas, ela admite ter ficado “impressionada” ao descobrir o trabalho de Bovo Theiler, um artista contemporâneo cuja obra a impactou profundamente. No campo da cerâmica, ela cita seu parceiro Luciano Polverigiani.
Atualmente, ela está se dedicando intensamente ao trabalho em grande escala. Os pequenos “xamãs”, que foram seu ponto de partida no têxtil, deram lugar a criações muito maiores. Ela pensa cada vez mais em intervir em grandes espaços, imaginando um lugar específico e transformando-o por meio de têxteis, cerâmica ou qualquer outro meio, embora o têxtil continue sendo sua mídia preferida.
Por muito tempo, participou de feiras em San Telmo, vendendo diretamente aos turistas, o que, apesar de ser um ambiente muito especial, a deixava exausta. A partir de 2018, começou a se concentrar nas redes sociais e em exposições, buscando abrir novos espaços para seu trabalho. Essa grande artista não apenas nos presenteia com o privilégio de sua arte, mas também compartilha uma das histórias que a inspiram, convidando-nos a imaginar mundos possíveis para que cada um de nós possa encontrar sua própria inspiração.